Será que vou votar a ser como eu era antes?

Letícia Calmon Drummond Amorim*

Uma das frases que mais escuto dos meus pacientes após  um surto é “gostaria de voltar a ser como antes”

Após um surto diversas coisas acontecem na cabeça do paciente, primeiro ele precisa lidar com as questões relacionadas ao surto, precisa superar  o fato de ter surtado e reorganizar diversas crenças que ele tinha acerca de si mesmo como ser inabalável, inquebrável, ou coisa do tipo,  também precisa enfrentar seus próprios preconceitos, o fato de ter tido um surto deixa a pessoa mais insegura e com medo de ter algo parecido de novo e perceber que o controle não está só nas suas mãos é delicado, precisa se adaptar a uma nova rotina, com os horários das medicações, hábitos saudáveis de vida e em algumas vezes mudança no estilo de vida.

Um surto apesar de trazer prejuízos e por vezes ter uma recuperação lenta não deve interferir nos seus sonhos, existe vida além do diagnóstico psiquiátrico.

Algumas vezes o ajuste medicamentoso pode levar um tempinho mas seu objetivo é equilibrar os neurotransmissores e estabilizar os sintomas, alguns podem ter efeitos colaterais, tais como, sonolência, prejuízo cognitivo, diminuição da libido, mas a medicação não vai transformar sua personalidade.

Por mais resiliente que a pessoa seja, diante de todos esses fatos que mencionei anteriormente, a pessoa muda. Muda a forma de encarar a vida, rever seus conceitos, suas prioridades, mas não deixa de viver sua vida.

Para aceitação a terapia comportamental e o mindfulness podem ajudar bastante para que a cabeça não fique ruminando besteiras. Mudanças são naturais, todos mudam independente de terem ou não surtado e o que se espera é que nessas mudanças se evolua, se torne uma pessoa melhor.

Quando me perguntam “ será que vou voltar a ser como era antes? Obviamente que a pessoa preferiria não ter surtado mas como não podemos mudar os fatos,  devolvo a pergunta “será que você quer realmente ser como antes?

* Psiquiatra da infância e adolescência, mestre em psicologia IPUSP