Juliana Gomes Pereira *

Segundo dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – CEBRID (Galduróz, Noto & Carlini, 1997), a maconha é a droga ilícita mais usada no Brasil entre estudantes do Ensino Médio e Fundamental da rede pública de ensino (Rigoni et al, 2007).

 

Segundo o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas(LENAD):

·         1 em cada 10 adolescentes que usa maconha é dependente;

·         Mais da metade dos usuários experimentaram pela primeira vez antes dos 18 anos;

·         Homens usam 3 vezes mais maconha do que as mulheres;

·         17% dos adolescentes que usaram no último ano, conseguiram a maconha na ESCOLA;

·         75% da população não concordam com a legalização da maconha.

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 Há uma grande variedade de alterações psicoativas na dependência do conteúdo de THC (tetrahidro-canabinol), que é o componente que induz as modificações do estado psíquico. Na atualidade, a concentração costuma ser 4 a 10 vezes maior do que na década de 70 (Silber & Souza, 1998) e a frequência de consumo aumentou, além da maior facilidade de acesso à droga.

Evidências de que o uso de cannabis prejudica funções cognitivas em humanos têm-se acumulado nas décadas recentes (Solowij & Pesa, 2010). A extensão em que os déficits cognitivos resultantes da cannabis podem ser reversíveis após a cessação do uso não é conclusiva. (Rigoni et al, 2007).

É possível observar a relação do abuso e dependência de maconha associado a comorbidades psiquiátricas como ansiedade, psicose e transtornos do humor. Uma meta-análise realizada recentemente mostrou que a maconha duplica o risco de psicose e contribui para 8 a 13% dos casos de psicose na população (Castle & Murray, 2004).

Perkonigg et al (2008) mostrou que ter companheiros que fazem uso de drogas aumenta o risco para início do uso. Além disso, a dependência de álcool precoce pode diferenciar os que apresentarão padrão de uso crônico de maconha dos que não farão uso após adolescência e idade adulta. Os jovens que foram expostos a fatores estressantes durante a vida são mais vulneráveis a ceder à pressão de amigos usuários de drogas, quando comparados aos jovens sem experiências estressantes. Apesar do controle da duração do uso, o desejo persistente e os esforços mal sucedidos para diminuir ou controlar o uso estão  fortemente associados ao uso contínuo em longo prazo.

Na prática clínica é fundamental que conheçamos os critérios mais importantes para a dependência de maconha:

1-      Forte desejo de usar a substância.

2-      Tolerância: necessidade de quantidades progressivamente maiores a fim de obter o mesmo efeito desejado.

3-      Abstinência: sintomas físicos e psíquicos na ausência da substância.

4-      Maior consumo de substância do que aquele pretendido.

5-      Esforços mal-sucedidos em reduzir o consumo.

6-      Muito tempo é gasto em atividades necessárias para a obetenção da substância.

7-      Priorização do consumo em detrimento das demais atividades sociais.

8-      Manutenção do uso, apesar dos prejuízos recorrentes.

A família tem papel fundamental no estabelecimento de regras e continência afetiva que podem agir como significativo fator protetivo contra a instalação da dependência química nesta faixa etária. O tratamento deve ser personalizado e atender à demanda individual, sendo que o mais precoce possível costuma render os melhores resultados.

 

Referências:

Galduróz, J C F, Noto, A R & Carlini, E A. IV Levantamento sobre o uso de drogas entre estudantes de 1º e 2º graus em 10 capitais brasileiras – 1997. Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas. São Paulo: UNIFESP.

Rigoni, M S et al . O consumo de maconha na adolescência e as conseqüências nas funções cognitivas. Psicol. estud.,  Maringá ,  v. 12, n. 2, Aug.  2007 .

II LENAD. lI Levantamento Nacional de Álcool e Drogas. Disponível em URL: http://inpad.org.br/lenad/.

Silber, TJ,  Souza, RP. Uso e abuso de drogas na adolescência: o que se deve saber e o que se pode fazer. Adolesc. Latinoam., oct./dic. 1998, vol.1, no.3, p.148-162.

Solowij, N ,Pesa, N. Anormalidades cognitivas no uso da cannabis. Rev. Bras. Psiquiatr. 2010, vol.32, suppl.1, pp. 531-540

Castle DJ, Murray R. Marijuana and madness; psychiatry and neurobiology. Cambridge, UK: Cambridge University Press; 2004.

Perkonigg, A, Goodwin, RD, Fiedler, A, Behrendt S,  Beesdo, K,  Lieb, R,

Wittchen, HU. The natural course of cannabis use, abuse and dependence during the first decades of life. Addiction 2008 103:3, 439-449.

Jungerman, F S; Laranjeira, R; BRESSAN, R A. Maconha: qual a amplitude de seus prejuízos?. Rev. Bras. Psiquiatr.,  São Paulo ,  v. 27, n. 1, Mar.  2005.

* Médica Psiquiatra da Infância e Adolescência