A importância do normal 
O que, de fato, é mais importante do que promover saúde e prevenir agravos? 
E quando falamos de saúde mental (e, ainda por cima, de saúde mental das crianças) o que significa isso? 
Alguém pode argumentar que esse é um trabalho para pais e educadores. Verdade. E que psiquiatras não tem nada que se meter com isso. Que devem limitar-se a diagnosticar e tratar os infelizes que já adoeceram. Será? 
Acredito que não é possível que um dos lados caminhe sem o outro. Ver apenas doença é tão limitante quanto ver apenas "não doença ". (Basta lembrar do espanto que causa a simples afirmação - sou psiquiatra de crianças: "nossa, mas o que eles tem? A vida deles é tão boa! "). A verdade é que muitas vezes, eles tem, sim, dor da vida. E que, muitíssimas vezes, as dores da vida precedem as condições que nós,  psiquiatras, diagnosticamos. 
Aqui faço mais um parênteses, agora dirigido aos "organicistas" de plantão. Não,  não esqueci a importância que fatos biológicos e hereditários exercem sobre o desenvolvimento de patologia. Estou apenas chamando a atenção para outro ponto, menos óbvio: que a vida, se muito adversa, leva a finais "infelizes ". 
Os mais recentes estudos sobre resiliência o confirmam. 
E, assim, chego a meu ponto. A importância do normal, no sentido restrito de "não doente ", é continuar normal. Isso se faz bastante em áreas como a infectologia, por exemplo, com as práticas de higiene e de vacinação. E em nossa área? O que se faz? Aqui no Brasil? Francamente, quase nada. 
As famílias, perdidas e submetidas ao frenético "ritmo moderno ", terceirizam o cuidado e educação de suas crianças. As escolas, muitas vezes meras cumpridoras de programas, agem como se não fosse problema delas. 
E, nós, médicos - ah, os médicos - quando não há patologia propriamente dita, mas apenas sofrimento, dizemos que "vai passar "... 
E, assim, como sociedade, vamos empurrando o problema, repetindo frases bonitas sobre inclusão e cidadania, mas sem nos preocuparmos de fato com o que se passa dentro das crianças. Quem, honestamente, pode dizer que já parou para pensar em como suas cabecinhas e seus corações funcionam? Quem, honestamente, mede a si próprio pelo efeito que causa nas crianças? E quem se lembra, de fato, de que não são pequenos adultos em uma vida - como diria Rubem Alves - linha de montagem ?
Muito poucos.
Só que sem os conhecermos, não podemos prevenir que adoeçam. Não podemos lhes propor uma vida que plante a possibilidade de um crescimento feliz. Podemos, apenas, repetir o que já estamos fazendo. E o que estamos fazendo não é suficiente. Estamos correndo atrás do prejuízo. Tentando fazer diagnósticos cada vez mais cedo. Transformando em doenças coisas da vida e do desenvolvimento normal. E esquecendo de promover um ambiente - social e afetivamente - saudável para que eles possam não adoecer... Para que eles possam ser normais. 

Tatiana Malheiros Assumpção

 

Dra. Tatiana Malheiros Assumpção
Psiquiatra da Infância e Adolescência
 
OBS: O texto é de responsabilidade do autor convidado para escrevê-lo