Um diagnóstico preciso

 

Letícia Calmon Drummond Amorim - Psiquiatra

Outro dia recebi um email de uma pessoa que antes de marcar a consulta gostaria de algumas informações, ela queria a certeza de que se passasse por uma avaliação receberia um diagnóstico preciso.

O que significa um diagnóstico preciso em psiquiatria? o que significa um diagnóstico preciso para o paciente? Uma série de reflexões me passou pela cabeça e eu precisei respirar e elaborar antes de responder o email. O que significa um diagnóstico preciso para o paciente vai depender de uma série de variabilidades individuais de cada paciente, e questões que não são possíveis ( e talvez também não seja ético) descrever em um post. Mas o que significa um diagnóstico preciso em psiquiatria? Aqui podemos brincar um pouquinho.

 Sabe-se que a psiquiatria deriva de ciências humanas, sociais e biológicas. Sabe-se que houve um avanço importante na área da neurociências e que muito já sabemos sobre o cérebro, suas funções, seu funcionamento, nosso conhecimento sobre genética possibilita saber os genes que herdamos e que passamos aos nossos e como isso vai definir determinados tipos de comportamentos e patologias, mas sabemos também que, não sabemos muita coisa acerca do funcionamento mental e que alguns comportamentos são aprendidos não herdados e que o indivíduo faz escolhas.

Até o momento não existe um marcador biológico, nem exames específicos para complementar a propedêutica psiquiátrica e “fechar” um diagnóstico em psiquiatria. Mas existem critérios diagnósticos bem descritos que junto de uma história clínica e de um exame psíquico acurados, além de avaliação com equipe multidisciplinar, nos levam a elaborar uma hipótese diagnóstica, podemos assim dizer que o diagnóstico foi preciso?

Sabemos que o mesmo paciente recebe muitos diagnósticos diferentes, relatando a mesma história à psiquiatras diferentes. Por que isso ocorre? Os psiquiatras são ruins? Simples, a ausência de um exame que confirme um diagnóstico e as diferentes visões da psicopatologia por diferentes profissionais, faz da avaliação psiquiátrica uma avaliação subjetiva, a tal ponto de se criarem manuais de diagnóstico e estatística para tentar homogeneizar os diagnósticos no mundo. Mas Também sabemos que somente “preencher critérios” não necessariamente leva ao diagnóstico mais preciso ( e aqui talvez alguns colegas não concordem comigo).

Eu gosto de pensar que a hipótese diagnostica inicial que fazemos na primeira avaliação convive em harmonia com diagnósticos diferenciais que também são aventados na primeira consulta, bem como fatores predisponentes (pessoais, socioculturais, ambientais, familiares), condições clínicas associadas e o funcionamento familiar. E essas hipóteses estarão sendo (no gerúndio mesmo) melhor investigadas nas demais (re)avaliações conforme a evolução do quadro confirmando a hipótese inicial ou direcionando à um dos diagnósticos diferenciais. Assim oferecemos o melhor tratamento para a síndrome psicopatológica da pessoa. No decorrer do tratamento deve-se considerar a flexibilidade dos diagnósticos psiquiátricos, a questão do desenvolvimento infantil (quando falamos em crianças) o curso clínico do transtorno em questão, e a possibilidade de outras hipóteses diagnósticas, bem como a presença de comorbidades.

Sim, estabelecemos diagnósticos, não sei se podemos dizer que são precisos, já que não será confirmado por nenhum exame objetivo, biomarcadores, até o momento que escrevo este post. Mas isso não é demérito da psiquiatria e sim uma particularidade. Cabe ao clínico orientar o paciente, os familiares e propor um tratamento eficicaz.