Um CID* para chamar de seu....

Dra Letícia Calmon D. Amorim - Psiquiatra

*CID= Classificação Internacional de Doenças

Na prática clínica em psiquiatria nos deparamos com diversas versões de diversos transtornos, a variabilidade individual faz com que o mesmo transtorno assuma diferentes formas, ou seja, o transtorno depressivo de fulano não é igual ao transtorno depressivo de Sicrano,  apesar de ambos apresentarem alguns sintomas em comum...

Mas, mais do que a variabilidade clínica de um mesmo transtorno, por vezes me surpreendo, com o fato de que algumas pessoas sem psicopatologia apresentam uma certa necessidade de ter um diagnóstico.

Obviamente que como psiquiatra sou a favor dos diagnósticos, acredito que informações sobre os problemas de saúde mental são fundamentais para desmistificá-los e reduzir o estigma que as pessoas enfrentam. Também é fato que os transtornos mentais são categorias diagnósticas bem definidas, com critérios bem estabelecidos e seu tratamento medicamentoso traz benefícios importantes, bem como, acredito que ocorra subtratamento de pessoas com problemas psiquiátricos por dificuldade de acesso a serviços de saúde mental.

É bem verdade que se uma pessoa ler um dos manuais vigentes CID-10 e DSM 5, vai se identificar e  preencher critérios para vários transtornos psiquiátricos, afinal o diagnóstico não se faz apenas considerando a presença ou a ausência do critério e sim da psicopatologia das operações mentais, do contexto e consideraras mudanças do quadro ao longo do tempo e  que mudanças culturais também interferem no diagnóstico.

O que eu questiono aqui, não é isso, e sim a dificuldade em lidar com sentimentos normais, ou com um “sintominha” e outro que por ventura possa aparecer. A dificuldade contemporânea de lidar com a angustia já é descrita por Freud em 1930 em “O Mal Estar da Civilização”. Mas nos tempos atuais talvez devido ao imediatismo para resolução de problemas e a necessidade de anestesiar a dor (por vezes necessária para o amadurecimento), levam algumas pessoas a buscar medicações para problemas do cotidiano ou emoções indesejadas.

 Alguns sentimentos, tais como, tristeza, ansiedade, medo, são inerentes ao ser humano e a vida, e as relações humanas são dinâmicas, isso implica que ações e conteúdos internos estão em constante interação e suscitam diversas emoções e interpretações. Nem tudo deve ser patologizado e parafraseando Gabriel Garcia Marques** tem males que não se cura com remédio.

Mas, o fato é que, tanto na clínica de adultos quanto na de crianças, por vezes nos deparamos com queixas   que não se constituem em um transtorno, por vezes são queixas, noutras apenas sintomas, e algumas vezes não necessitam de medicação, apenas um seguimento para acompanhar a evolução.

O propósito desse texto é apenas ressaltar a importância de que  em situações complicadas procurem bons profissionais, esses saberão quando encaminhar, quando acompanhar e quando  medicar, e aí, está a arte de praticar a psiquiatria, uma ciência biológica e humana...

** “Não há remédio que cure o que a felicidade não cura” em O amor nos Tempos do Cólera