Márcia Morikawa*  

 

A mídia e as pessoas frequentemente usam termos científicos para denominar sentimentos e costumes corriqueiros e não patológicos, como: “fulano tá deprimido porque tirou uma nota baixa hoje”, se referindo à tristeza temporária devido ao desempenho medíocre, “Ciclano é bipolar, acorda de mau humor e logo está sorrindo! ”, referindo-se à oscilação do estado de afeto da pessoa conforme o estimulo do dia, “aquela menina tem manias demais”, quando a pessoa tem costumes e trejeitos estereotipados.

Sendo assim, como saber quando uma pessoa está deprimida mesmo, quem realmente bipolar e o que é mania? Pior ainda... como saber o que é o que, quando observamos crianças e adolescentes, que são indivíduos extremamente mutantes?

 

A depressão, nome corriqueiro dado ao Transtorno Depressivo, não é um sentimento. Isso é a tristeza. A depressão, em si, é uma síndrome, que necessita de um conjunto de fatores, para que seu diagnóstico seja correto. Quando suspeitar que uma criança ou um adolescente está deprimido? Crianças deprimem? Crianças pensam em morte? Bem, a resposta é SIM. Crianças deprimem. Estima-se que 2% das crianças apresentem o transtorno depressivo, antes dos 12 anos de idade, sendo a incidência igual entre meninos e meninas. Já na adolescência, a prevalência é de 5,6%, com proporção de meninas um pouco maior do que de meninos.

A duração média de um episódio depressivo na infância-adolescência é de 7 a 9 meses, daí vocês entendem o porquê não dá para estar deprimido “hoje” e somente hoje, por causa de uma prova, do termino de uma relação. 50% dos indivíduos tem recidiva dos sintomas e 10% terão curso crônico. Então... o que fazer?

Quando há a suspeita de um quadro depressivo, o primeiro passo a ser tomado, é a procura de um psiquiatra, para a avaliação dos sintomas e diagnóstico correto. Para que este diagnóstico esteja correto, é necessária a exclusão de outras patologias clínicas que possam ser responsáveis pelos sintomas apresentados.

E quais seriam os sintomas sugestivos de depressão? Em primeiro lugar: mudança do padrão de funcionamento. Se uma criança, previamente, tinha bom desempenho escolar, bom relacionamento social e deixa de tê-los, ou começa a apresentar queixas escolares de comportamento, é sempre bom parar e começar a buscar, ativamente, outros sintomas como: irritabilidade, alteração do padrão do sono (com excesso de sono ou diminuição do mesmo), da alimentação, diminuição da autoestima, lentificação ou agitação psicomotora, dificuldade de concentração, baixa vontade de fazer as coisas ou participar dos eventos corriqueiros, eventos de automutilação (como se cortar, sem o intuito de causar a morte) e até pensamentos de morte.

O tratamento da depressão depende de sua gravidade. Casos mais leves podem ser tratados com base na psicoterapia e casos moderados e graves demandam tratamento medicamentoso, a base de antidepressivos, além do tratamento psicoterápico. Muitos tabus, com relação às medicações, acabam interferindo no tratamento adequado do paciente, desde a idéia de que todas as medicações psiquiátricas viciam, até o conceito de que “se eu der remédios ao meu filho, quer dizer que eu não sou boa mãe”, postergando a melhora do paciente e muitas vezes, piorando sua evolução e prognóstico.

Com relação ao Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), seu diagnóstico é realizado com base na história clínica do paciente, ou a observação de seu estado de humor atual, se o paciente se encontrar em hipomania ou mania. A hipomania é o estado persistente do humor, com um aumento da energia, bem estar, diminuição da necessidade de sono, mas sem sintomas delirantes ou alucinatórios. É como uma felicidade exagerada, sem desencadeante, sem a resposta adequada aos estímulos negativos (tristes) que venham a acontecer ao redor do indivíduo. A mania, que é um termo técnico e nada tem a ver com rituais ou costumes, é um estado anormal, persistente do humor, como se a pessoa estivesse ligada no 220v, mas muito diferente do seu normal. Em geral é acompanhada de fala acelerada, aumento da atividade física, redução acentuada da necessidade de sono (alguns ficam até alguns dias sem dormir nada), imprudência, sensação de grandiosidade (como se a pessoa tivesse poderes maiores do que o normal), com possibilidade de delírios de grandiosidade (achar que são figuras importantes da história, que detém algum poder sobrenatural, etc). Em crianças, acorre com frequência, a apresentação de episódios mistos, com concomitância de sintomas depressivos e maníacos e com oscilação rápida entre um estado e outro. Tal apresentação também pode ser vista em adultos, mas com menos frequência. A prevalencia do TAB é menor do que 1%, na infância e adolescência e chega a ser estimada entre 1 a 2% na faxa etária adulta. Para o diagnóstico de TAB, é necessária a apresentação de um evento de mania ou hipomania, no decorrer da história clínica, associado a eventos depressivos.

O tratamento do TAB baseia-se no uso de estabilizadores de humor e antipsicóticos, a depender da apresentação do quadro, sua gravidade e sua resposta aos medicamentos. O tratamento multiprofissional acaba sendo, por muitas vezes, essencial à evolução clinica apresentada.

Referencias:

Dorothy Stubbe – Psiquiatria da Infância e Adolescencia

Thombs et al,Syst Rev. 2012 Nov 24;1:58. doi: 10.1186/2046-4053-1-58.

David Cohen, Infancia e Psicopatologia.

 

* Médica Psiquiatra da Infância e Adolescência