Andreas Stravogiannis *

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um dos mais comuns transtornos do neurodesenvolvimento, podendo afetar cerca de 5% da população mundial de crianças e adolescentes. Trata-se de uma síndrome (conjunto de sinais e sintomas) que é normalmente evidenciada na infância, caracterizando-se por atividade motora excessiva, dificuldade em sustentar a atenção e impulsividade. Os pacientes com tal transtorno costumam ter prejuízos funcionais significativos, tais como problemas familiares e sociais, baixo rendimento acadêmico, abandono escolar, baixa auto-estima e dificuldades no desenvolvimento emocional. Além disso, o TDAH pode estar associado a outras comorbidades psiquiátricas como transtorno de conduta, transtorno opositivo-desafiador, transtornos de aprendizagem, transtornos ansiosos, transtornos de humor (em especial a depressão) e abuso de álcool e/ou drogas ilícitas. Atualmente, considera-se para o diagnóstico que os sintomas estejam presentes antes dos 12 anos de idade, mas eles costumam continuar ao longo da adolescência e frequentemente acompanham o indivíduo na idade adulta, levando a maiores taxas de problemas ocupacionais, gravidez precoce, divórcio conjugal, doenças sexualmente transmissíveis e acidentes de trânsito.

 

O TDAH pode ter diversas outras denominações, como Transtorno do déficit de atenção (TDA, sem ser mencionada a hiperatividade), Distúrbio do déficit de atenção (DDA), Distúrbio da atividade e da atenção, Transtorno hipercinético de conduta (como consta no sistema de classificação CID-10, utilizado no Brasil), e as siglas em inglês ADHD, AD/HD e ADD, o que eventualmente leva a alguma confusão. Isso se explica em parte pelo fato de se tratar de um transtorno bastante heterogêneo em sua apresentação clínica, já que ele é subdividido em 3 grandes eixos de sintomas (desatenção, hiperatividade e impulsividade), podendo haver diferentes combinações entre eles. Por exemplo, existem crianças predominantemente desatentas, outras predominantemente hiperativas, outras desatentas e hiperativas concomitantemente, e outras com sintomas impulsivos associados. Além disso, mesmo pacientes classificados dentro de um mesmo eixo podem apresentar sintomas diferentes entre si. Segue abaixo uma descrição dos principais sintomas, separados nos respectivos eixos, que constam dos critérios diagnósticos atuais:

Sintomas de desatenção:

·         Não conseguir prestar atenção em detalhes, ou cometer erros por descuidos nos trabalhos escolares ou outras atividades

·         Ter dificuldade em manter a atenção em tarefas ou jogos/brincadeiras

·         Parecer não escutar quando alguém lhe fala diretamente

·         Não seguir instruções e não terminar tarefas ou deveres

·         Ter dificuldades para organizar tarefas e atividades

·         Evitar ou não gostar de tarefas que exijam manter esforço mental

·         Perder seguidamente brinquedos, livros, lápis, trabalhos escolares ou outros objetos necessários para suas atividades

·         Distrair-se facilmente por estímulos externos

·         Ter ¨esquecimentos¨ em atividades cotidianas

 

Sintomas de hiperatividade:

·         Mexer as mãos e os pés em excesso ou se contorcer na cadeira, quando sentado(a)

·         Levantar-se em situações em que deveria permanecer sentado(a)

·         Correr ou subir em móveis em situações inapropriadas

·         Ter dificuldade de brincar em silêncio.

·         Estar frequentemente ¨a mil¨, ¨ligado(a) na tomada¨

·         Falar excessivamente

           

            Sintomas de impulsividade:

·         Responder antes que a pergunta seja completada

·         Ter dificuldade em aguardar a própria vez

·         Interromper ou se intrometer em conversas ou jogos alheios.

 

A causa do TDAH ainda é desconhecida, mas há evidências de que ele tenha fortes componentes tanto genético quanto ambiental, visto que a taxa de herdabilidade é estimada em 76% (considerada alta) e que situações como baixo peso ao nascer, prematuridade e exposição intra-uterina ao tabaco estão ligadas a um maior risco de desenvolvimento do transtorno. O diagnóstico é eminentemente clínico, ou seja, feito através da avaliação e observação por um profissional da área, não havendo um teste ou exame específico.

Os tipos de tratamento considerados mais eficazes atualmente são a farmacoterapia e as intervenções psicossociais. O primeiro se refere ao tratamento com medicações psicoativas, entre as quais se destacam como opções de primeira escolha os estimulantes (metilfenidato, lisdexanfetamina). Já o segundo inclui técnicas da terapia comportamental, que visa mudanças no ambiente físico e social com o intuito de modificar o comportamento, e treinamento parental, voltado para pais de pacientes em idade pré-escolar.

 

Referências

APA – DSM-5. Attention Deficit/Hyperactivity  Disorder (2013). Disponível em http://www.dsm5.org/Documents/ADHD%20Fact%.20Sheetpdf.

Dias TGC et al. Developments and challenges in the diagnosis and treatment of ADHD. Rev Bras Psiquiatr (2013);35(1):S40-S50

Reddy DS. Current Pharmacotherapy of Attention Deficit Hyperactivity Disorder. Drugs of Today (2013);49(10):647-665.

Biederman J, Faraone SV. Attention-deficit hyperactivity disorder. Lancet (2005);366:237-248.

 

 * Médico Psiquiatra da Infância e Adolescência