Márcia Morikawa *

Recentemente circulou um video entitulado "A ira de um Anjo" nas mídias sociais, que mostrava a entrevista de uma menininha, que narrava -durante suas sessões de psicoterapia- sobre as atitudes agressivas direcionadas ao irmão biológico e aos pais adotivos. Na discussão mais recente sobre a maioridade penal, este tópico também se torna recorrente. Vamos entender um pouco mais sobre o transtorno?

- O que é o transtorno de conduta infantil?      

Sabemos que comportamentos disruptivos, oposição às regras, tentativas de burla às normas, transgressão de alguns limites e mentiras ocasionais, podem fazer parte da infância e adolescência normal. Mas quando conversamos sobre o transtorno de conduta, estamos falando de uma patologia psiquiátrica, com critérios diagnósticos específicos, que implicam em uma grande disfuncionalidade para a criança/adolescente, sofrimento dos que o cercam e necessidade de instituição de um tratamento.

O transtorno de conduta, em si, é caracterizado pelo comportamento persistente e repetitivo de violação de normas sociais e/ou dos direitos dos outros, ao longo de pelo menos 12 meses.

Dentre os transtornos mentais de saúde, sabemos que o transtorno de conduta afeta de 3,1 a 5,7% dos jovens, com a percepção, mais frequente, dos sintomas entre os 7 e 15 anos de idade. Geralmente, acomete mais meninos do que meninas.

 

- Quais os comportamentos típicos de uma criança que sofre de transtorno de conduta?

Os comportamentos frequentemente encontrados são: ameaças de bullying, intimidação de pares e autoridades, confrontos físicos, uso inadequado de objetos que podem causar danos ao outro (como tijolos, canivetes, barras de ferro, etc), crueldade contra pessoas ou animais, furto, roubo, abuso sexual, destruição de propriedade pública ou alheia, inicio de incêndios, violação séria de regras, fugas de casa antes dos 13 anos (apesar da proibição pelos pais). Há intenso prejuízo para das funções sociais e acadêmicas, em geral, com baixo rendimento escolar.

 

- O transtorno é fruto do ambiente e da educação ou a criança nasce dessa forma?

A personalidade do homem, medicamente falando, está em formação até os seus 18 anos de idade. Ela é constituída pela união do temperamento, que são as características que nos acompanham desde o nascimento, e do caráter, que nos é ensinado pelo meio, sobre o certo, o errado, as normas, as condutas. Além disto, há a influência dos fatores genéticos, condições durante a gestação (infecções, uso de substâncias, etc), experiências vivenciadas durante o crescimento, que também influenciam no indivíduo em formação. Portanto, não há UM culpado. Há uma predisposição daquele indivíduo, que pode ser reforçada pelo meio de uma forma positiva ou negativa, culminando nos comportamentos disruptivos e, possivelmente, no transtorno.

 

- Qual é o tratamento adequado?

O tratamento mais eficaz é a combinação de medicação, para controle dos sintomas disfuncionais (como: agressividade, baixa tolerância a frustrações, crises de agitação psicomotora, etc) e tratamento das comorbidades  (como TDAH, depressão, ansiedade, Transtorno afetivo Bipolar), e psicoterapias: psicoterapia familiar e individual, orientação de pais, e treinamento de pais e professores em técnicas comportamentais. Quanto mais leves os sintomas e menor a idade da criança, no inicio das abordagens, maior o seu benefício com a psicoterapia e, em geral, melhor sua evolução.

 

- Há cura?

Quando falamos sobre aspectos de personalidade, estando ela em formação ou já tendo sido formada, é muito difícil falamos em “cura”. Claro que existem tratamentos, que objetivam o controle sintomático e o estímulo da funcionalidade do indivíduo, e estes são necessários, para que tentemos que o mesmo cause menos sofrimento aos que o cercam e se enquadre nas normas primordiais da sociedade. Obviamente, as resposta à esses tratamentos são proporcionais ao envolvimento da família e do meio que cercam o indivíduo, sendo eles fundamentais no processo.

 

- Uma criança ou adolescente com essa patologia será, necessariamente, um adulto psicopata?

Crianças e adolescentes são seres em formação. Portanto, tem uma maior plasticidade, quando comparados aos indivíduos adultos, às abordagens propostas e mudanças no meio ambiente. Com uma boa intervenção, pode-se dizer, que o indivíduo não está, necessariamente, fadado a ter um transtorno de personalidade antissocial.


- Existe um tabu sobre crianças serem malvadas? Há pais que negam que seus filhos tenham o transtorno?

Claro que existe um tabu sobre isto. Crianças são idealizadas, desde sua pré-concepção, para serem saudáveis, inteligentes, lindas, espertas, bem sucedidas, etc. Nas obras religiosas do Renascimento, os anjos eram representados por crianças, com asas, pois sempre estiveram relacionadas à pureza. Quem já não ouviu “viu como criança não mente?” ao ouvir algum comentário desprovido de filtro social, disparado por um pequeno? As crianças, na sua maior parte das vezes, são concebidas para serem “perfeitas”. Sendo assim, é difícil para quaisquer pais, aceitarem que seus filhos tenham problemas, sejam estes físicos ou psíquicos. Há muito preconceito quando falamos de transtornos psiquiátricos, em qualquer faixa etária, ainda mais quando é na infância e adolescência. Os pais não conseguem aceitar que seus filhos sejam diferentes, sentem-se culpados, acham que falharam na educação, na observação deles.

Quando falamos de sintomas que transgridem as normas do aceitável socialmente, então, encontramos ainda mais resistências em olhar o problema e lidar com ele.

 

Alguns filmes que podem ajudar a entender mais o tema, clique no hiperlink:

O Anjo Malvado

Aos Treze

Cidade de Deus

 

Ainda tem dúvidas a respeito?

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.