Psicopatologia e Cinema: Tão Forte e Tão Perto

Letícia Calmon D. Amorim*

 

Com roteiro de Eric Roth (Forrest Gump e O Curioso Caso de Benjamim Button) dirigido por Stephen Daldry (Billy Elliot, As horas, O Leitor) e baseado no livro homônimo de Jonathan Safran Foer (escritor americano, que até onde eu pesquisei no Google, não tem nenhuma ligação pessoal com autismo); o filme conta a história de Oscar Shell (Thomas Horn, interpretação honesta) um menino de 9 anos que após a morte do seu pai no atentado de 11/09/2001, busca resolver um enigma acerca de uma chave encontrada no armário do pai.

No início do filme conhecemos as personagens centrais: Oscar, seu pai (o sempre sensacional Tom Hanks) com quem tem uma ótima relação e sua mãe (Sandra Bullock, também dispensa apresentações) apesar dos seus esforços ela tem uma certa dificuldade de compreender a maneira de se relacionar do seu filho,  eles são mais distantes, vale lembrar que ela também está passando pelo processo de luto.

No decorrer da história somos apresentados a outras personagens, com destaque ao inquilino (Max Von Sydow cuja interpretação lhe rendeu uma indicação ao Oscar 2012 como ator coadjuvante). Não quero estragar o prazer dos que não assistiram ao filme, mas sim fazer uma análise psicopatológica do protagonista.

Apesar de Oscar mencionar que fez um teste para saber se tinha síndrome de Asperger, não fica claro se o diagnóstico foi confirmado. É possível perceber os sintomas ao longo da película. Já nas primeiras cenas chama atenção a maneira peculiar de Oscar encarar a vida (confesso que fui ao cinema sem saber sobre o que se tratava o filme, e logo de imediato levantei essa suspeita diagnóstica que foi se confirmando no decorrer da narrativa). Não temos dados sobre seu desenvolvimento neuropsicomotor, mas podemos perceber que ele não apresenta atraso significativo na linguagem ou déficits na inteligência. Porém apresenta linguagem formal, tom monótono, poucas variações de prosódia e expressões faciais. Em algumas cenas ficam evidentes déficits na teoria da mente (capacidade de se colocar no lugar do outro e prever seu comportamento), a hipersensibilidade a sons ora por que se entretêm com sons pequenos ora porque se irrita com barulhos comuns no cotidiano de uma cidade como Nova York (a cidade também é personagem da história), chegando a tapar os ouvidos ou recorrer ao som do seu pandeiro (este tem uma função de objeto reforçador), a facilidade com números, datas, distâncias lembram interesses circunscritos tão comuns em Aspergers e uma certa rigidez em aceitar alterações nos seus planos.

Há possivelmente comorbidade com transtorno depressivo/ansioso caracterizado pelo comportamento auto-lesivo e por fobias de “coisas que não são seguras” tais como, pontes, trens e balanço, se bem que estas já estavam presentes antes do falecimento do seu pai .

 A dificuldade na interação social fica evidente ao percebermos que Oscar não tem muitos amigos da sua idade, se relaciona melhor com adultos e prefere atividades que podem ser feitas individualmente. A relação que ele estabelece com o inquilino é interessante, já que lhe traz segurança e aponta que esses indivíduos desejam se relacionar mas é preciso que o outro se possa “pensar como ele”.

O filme é sensível e interessante, penso que algumas críticas que recebeu foram injustas por 2 motivos: comparar com o livro que tem uma linguagem diferente e mais profunda e por dificuldade em se projetar ao pensamento do protagonista.

 

*cinéfila e psiquiatra da infância e adolescência

Fontes:

http://www.jb.com.br/programa/noticias/2012/02/24/critica-tao-forte-e-tao-perto/

http://www.cinepop.com.br/criticas/tao-forte-e-tao-perto_103.htm

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jonathan_Safran_Foer http://omelete.uol.com.br/tao-forte-e-tao-perto-extremamente-alto-incrivelmente-perto/cinema/tao-forte-e-tao-perto-critica/

 

Texto anteriormente publicado no extinto blog Jornal da Cuca em 02/03/2012 e http://www.ama.org.br/site/images/stories/Voceeaama/artigos/120920psicopatologia%20e%20cinema_%20to%20forte%20e%20to%20perto.pdf