Psicopatologia e Cinema: Ocean Heaven

Letícia Calmon D. Amorim*

 

O filme de produção chinesa conta a história de Dafu, que apresenta autismo e seu pai que ao inicio do filme é diagnosticado com uma doença grave, cuja expectativa de vida gira em torno de 4 meses. A aproximação de sua finitude traz diversas preocupações quanto ao futuro de Dafu e esse é o plot central do filme. Um filme belíssimo que toca em assuntos extremamente delicados sem “forçar a barra” ou cair na pieguice.

O filme aborda diversas questões reais e cotidianas das famílias que convivem com pessoas com autismo, tais como, a dificuldade em aceitar o diagnóstico, dificuldade de inclusão escolar e em outros serviços, solidão e limitações do pai diante dessas dificuldades, a importância do treinamento de habilidades e como prepará-los para o futuro, que é o aspecto que vou focar nesta discussão.

Há mais ou menos dois anos o tema do Encontro da AMA foi sobre envelhecimento, a ideia era abordarmos as particularidades do envelhecimento das pessoas com autismo, no que se refere à saúde, qualidade de vida e como nos preparar para a perda dos pais/cuidadores. Na ocasião preparei um questionário informal para saber o que as mães estavam pensando sobre isso.

O questionário foi respondido por apenas 58% das mães que tinham seus filhos matriculados na AMA em 2010, abaixo seguem alguns itens do questionário seguido da porcentagem de

respostas de cada alternativa.

 

 Você se preocupa com o futuro do seu filho?

a) sim, mas não sofro por antecipação. 36%

b) Sim, e já estou tomando providências. 41%

c) Às vezes, mas evito pensar nessas coisas. 18%

d) Outras. 5%

 

 O que mais traz angústia em relação ao futuro?

a) Como ele se manterá financeiramente. 5,76%

b) Quem cuidará dele. 73,07%

c) Doenças/morte 7,69%

d) Outras 13, 46%

 

 Gostaria que seu filho estivesse sob cuidados de:

a) familiares.63,46%

b) Instituição.14,42%

c) Abrigo. 0% d) Acompanhante terapêutico.6,73%

e) Outras. 15,38%

 

O questionário apontou que a maioria faz reflexões sobre o futuro e a preocupação maior gira em torno de quem será o cuidador, mas a resistência ao tema pode ser observado pelo fato de 42% não terem respondido ao questionário, e que na primeira pergunta 56%(soma das respostas A e C) acham cedo ou preferem evitar o assunto e acabam por adiar o planejamento do futuro de seu filho. Essa atitude é comum ao seres humanos, que são os únicos seres vivo  conscientes de sua finitude, e essa consciência, segundo Minkowski traz uma angústia superada por atribuições do dia a dia, realizações e significados que dão sentido à sua existência. A morte é certa mas também indeterminada, é possível a cada instante o que determina as ocupações cotidianas colocando-as a frente como possibilidades previsíveis e próximas transferindo a morte para mais tarde. O pai de Dafu passa por uma situação em que não havia esse planejamento e o potencial de Dafu não foi bem desenvolvido, porém os médicos fizeram uma estimativa de vida e ele teve um período para estabelecer um treinamento visando autonomia. Dafu representa um tipo de autismo com grande potencial, mas que só é explorado à medida que se fez necessário. Daí a importância de desde cedo estabelecer rotinas e treinamentos de atividades da vida diária e

prática e desenvolver habilidades. Fica a dica do filme e que ele faça refletir sobre o futuro com os pés no chão e com tranquilidade.

(SPOILER) A grande sacada do pai foi se vestir de tartaruga e mostrar ao filho, que passa suas tardes dentro de um aquário, uma forma de transpor a morte e de que eles estariam juntos por toda a vida. Alguém duvida?

 

*Letícia Calmon Drummond Amorim – Cinéfila e psiquiatra da infância e adolescência

Texto publicado anteriormente em http://www.ama.org.br/site/images/stories/Voceeaama/artigos/20122012cean%20heaven.pdf