Psicopatologia e Cinema: "Entre Abelhas"

Letícia Calmon D. Amorim*

 

Roteirizado por Fabio Porchat e Ian SBF, o filme conta a história de Bruno (Fábio Porchat – em uma interpretação memorável) que sofrendo por uma separação recente deixa de ver as pessoas, a obra é recheada de metáforas e sujeita a várias interpretações, a minha interpretação psicopatológica  é de que Bruno sofria de depressão psicótica.

Ao iniciar o filme observamos que Bruno se queixa de tristeza, sensação de vazio, desesperança apresenta o humor deprimido na maior parte do dia e quase todos os dias, desinteresse por atividades sejam as laborativas ou atividades prazerosas, perda de energia, sentimentos de culpa excessiva, os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo e prejuízo do funcionamento social, caracterizando assim um Transtorno depressivo maior.

Apesar de não ser critério diagnóstico para Transtorno depressivo maior, vale ressaltar o uso abusivo de álcool em algumas cenas do filme e que a literatura aponta uma associação entre depressão e consumo de álcool.

O quadro evolui com sintoma psicótico niilista ele acredita que as pessoas, assim como as abelhas, estão desaparecendo...ele deixa de enxergar algumas pessoas (com algumas cenas engraçadas que aliviam a tensão dramática do filme), caracterizando assim um transtorno depressivo maior com características psicóticas congruentes ao humor. Vale ressaltar também  que Bruno apresenta história familiar positiva, já que seu avô era esquizofrênico e que o fato de algum membro da árvore genealógica apresentar doença mental predispõe doença mental em outros membros da família.

No filme Bruno busca tratamento e o profissional fictício não prescreve medicação (que é mandatória nesses casos) e indica psicoterapia de orientação analítica. As evidências apontam maior eficácia no tratamento de transtornos mentais graves quando a medicação é associada à psicoterapia cognitivo-comportamental.

Alerta de SPOILER, no decorrer do filme o quadro clínico evolui com piora significativa dos sintomas, ele deixa de enxergar sua mãe em um momento angustiante do filme. O roteiro junta suas pontas e à medida que ele vai desapegando da sua ex-mulher como podemos observar na cena em que ele joga a cadeira vermelha fora, se abre para um universo de novas possibilidades e volta a enxergar.

A remissão de um quadro grave espontaneamente só é possível na ficção, na vida real esses casos devem ser encaminhados ao psiquiatra e tratados com medicamentos e psicoterapia cognitivo-comportamental.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Letícia Calmon Drummond Amorim: cinéfila e psiquiatra da infância e adolescência

 

Imagem: http://i.ytimg.com/vi/HspEMx-qyPo/maxresdefault.jpg