04/06/2016 - Maconha: Um Simpósio Baseado em Evidências

Juliana Gomes Pereira

 

Aconteceu o evento no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, preparado pelo GREA- Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e  Drogas do Instituto de Psiquiatria (IPQ) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).

A maconha é a droga ilícita mais consumida no Brasil e no mundo. No entanto, apesar dos esforços em pesquisa realizados nos últimos anos, o tratamento de indivíduos dependentes de maconha ainda representa um grande desafio aos profissionais da área (Oliveira, HP, Malbergier, A, 2014). A oportunidade de frequentar um evento desta natureza é rica pela chance de ver o que há de fundamento científico até o momento, uma vez que o consumo entre os adolescentes cresce e a maioria dos estudos é feita com adultos, até porque é rara a demanda espontânea por tratamento em serviços de saúde na faixa etária da adolescência. O aumento da vulnerabilidade pelo uso  mais  precoce ocorre  associado ao menor repertório  de  habilidades  sociais  e  maior  dificuldade  de  crítica  diante  das  consequências negativas (Pereira, 2014).

 

Não é o objetivo descrever tudo o que ouvi no evento mas, ressaltar notícias importantes sobre o tema.

Dr. Arthur Guerra, Professor Titular do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC). Professor Associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP-GREA), falou sobre o panorama atual, mitos e verdades sobre a maconha e aumento do consumo e a importância das pesquisas para o reconhecimento da associação com comodidades psiquiátricas.

 

Henrique Carneiro, filósofo, enfatizou dados históricos como o isolamento do THC por Raphael Mechoulam, em 1964, em Israel-  e de lá saem muitos estudos sobre o tema, o que pude conferir quando morei em Tel Aviv e tive contato com muitas pessoas ativistas em favor da maconha e seu uso medicinal. Lembrou do Profº Carlini, que fundou a “Maconhabrás”  https://almanaquedasdrogas.com/2013/11/07/unifesp-cria-o-maconhabras-grupo-de-estudos-sobre-a-maconha/dedicada à investigação do tema através da UNIFESP. Valoriza o uso compassivo, que se refere ao efeito timoléptico, relacionado ao PRAZER. Informa que 24 estados e uma capital federal legalizaram o uso medicinal e 4 legalizaram o uso RECREATIVO.

 

Alline Cristina de Campos, Farmacêutica da USP Ribeirão, falou sobre o trabalho de doutorado e pesquisas com canabidiol. Realmente a indicação medicinal hoje é para epilepsias refratárias e esclerose múltipla.  O Marinol (THC) e Sativex (THC + canabidiol) são medicações aprovadas. Ainda não conhecemos os efeitos prejudiciais do canabidiol. Sabe-se que o THC é a substância mais nociva porque causa dependência, ativa o sistema de recompensa cerebral e é responsável pelo efeito psicoativo, conhecido por “brisa"pelos adolescentes.

 

Dra Maria Alice Novaes atentou para a exposição dos jovens ao consumo de maconha de forma que eles tenham uma diminuição da percepção de risco. Como exemplo mostrou os vídeos da Silenced Hippie que mostra inúmeros vídeos da uma garota bonita de 23 anos, frequentemente intoxicada por maconha, que faz um merchandising dos produtos que utiliza para fumar como os bang, por exemplo.

Esclarece que a memória melhora após 4 a 8 semanas de abstinência. Adultos que usam há mais tempo, demoraram 01 ano para apresentarem melhora da memória. "O uso persistente e pesado entre os adolescentes reduz o QI de 6 a 8 pontos. Quando consideramos que a média de QI da população é 100, uma queda de 6 a 8 pontos ainda o deixa numa faixa de normalidade, mas para aqueles que já tem um QI médio inferior, a queda pode representar muitos prejuízos na vida acadêmica". Hoje já é bem estabelecido o prejuízo na direção de que dirige intoxicado por maconha e como o efeito é dose dependente, como é possível observar neste video. Ela, gentilmente, cedou atravees do Facebook a sua apresentação- clique aqui.

 

 

Dr Sérgio Nicastri, (psiquiatra, pesquisador) mostra as evidências através de exames de imagem, referentes à perda neuronal causada pela maconha e os exames funcionais durante atividade intelectual, comparado aos grupo-controles sem prejuízo.

 

Dra Flávia Jungerman (Grea) mostra como o sistema cognitivo fica prejudicado pela falta de repertório social e como o processamento cognitivo leva a fumar maconha para aliviar qualquer incômodo.  As técnicas psicoterapêuticas recomendadas são a terapia cognitivo-comportamental, o Mindfulness (que envolve estar atento as reações do corpo de forma não julgadora).Poucos procuram tratamento. O perfil de quem procura tratamento é de usuários de mais de 10 anos, adultos, com prejuízos familiares, sociais, problemas financeiros e poucos satisfação com a vida. Poucos adolescentes procuram, senão por pressão familiar- não vêem prejuízo. Gates et al, 2016 observou que 04 sessões intensivas produzem mais resultados do que terapias menos intensivas. Baixas taxas de abstinências: 1/4 do total que procura tratamento. Ramos et al, 2015 encontrou 59 apps sobre maconha- forma mas ágil de atingir adolescentes. REDUCE YOUR USE mostra resultados interessantes. 

Para ADOLESCENTES, o tratamento é efetivo em reduzir uso. Entretanto, o efeito é muito pequeno em sua magnitude. Recaída em 01 ano é alta, 1/3 consegue abstinência e metade consegue reduzir danos. 

O perfil dos usuários prediz a evolução: dependência em maconha, consumo diário e fatores socio-demográficos.

 

Dr Hercílio Pereira da Oliveira Jr (psiquiatra- GREA)- deixa bem claro: “Não há medicações aprovadas pelas agências reguladoras para o tratamento de indivíduos dependentes de maconha”. A recomendação é de medicamentos sintomáticos para a síndrome de abstinências como antiespasmódicos, antinflamatórios, analgésicos, benzodiazepínicos (com cautela) e indutores do sono.

As medicações canabinóides poderiam melhorar sintomas de abstinência, como o Dronabinol, Nabilone e Sativex, embora os resultados sejam preliminares.

Naltrexona- houve efeito negativo com aumento do uso da droga (Haney, 2003)- Muito importante!!!

Muitos antidepressivos não mostraram nenhum resultado em relação ao consumo de maconha. Mirtazapina melhorou o sono e apetite mas, não o consumo de maconha.

Diagnosticar comorbidade e tratá-las é fundamental:  depressão, ansiedade, bipolaridade, surtos psicóticos, déficit de atenção e hiperatividade, entre outros.

 

Maurício Dieter, criminólogo, levantou a questão da descriminalização e a forma como as cadeias estão lotadas de usuários, assim como as internações para adolescentes infratores, excedendo a capacidade máxima. Muitos deles foram apreendidos com maconha por serem usuários e não cometeram crimes graves, além do preconceito envolvido, predominância de detenção para pobres e negros. No Colorado, houve aumento de homicídios devido ao aumento da oferta de dinheiro advindo da legalização da maconha e sua comercialização- obviamente há outros interesses na legalização. Criticou os programas de prevenção de drogas em alunos de 10 anos e o efeito zero na adolescência. Intervenções com os PAIS costumam ser mais efetivas.

 

Murilo Battisti, psicólogo abordou intervenções de prevenção nas escolas, projetos que deveriam visar 10 anos adiante, comportamento dos pais e a responsabilidade deles. Adolescentes precisam de MAIS TEMPO COM OS PAIS, FAZENDO ATIVIDADES COM ELES. O perfil de usuários costuma depender do perfil dos pais: autoritativos, autoritários, indulgentes e negligentes (Tondowiski, 2013). Existe uma necessidade muito grande de fortalecimento da educação para atrair o jovem em outros projetos senão a droga.

Dr André Malberguer (Psiquiatra, GREA) falou das pesquisas que referem melhora de sintomas no câncer e tratamento da dor neuropática (THC fumado e Sativex). Para aliviar sintomas de quimioterapia, houve fraco resultado. Evidência de muito baixa qualidade para falar em público, ansiedade, depressão e efeitos colaterais graves ao uso: náuseas, desequilíbrio, vômitos, boca seca, fadiga, alucinações.

Em pacientes predispostos, o surto psicótico é uma condição bem elucidada na Medicina e o risco é alto sob o uso de maconha. Um trabalho de 2016 demonstrou que o uso de cannabis por 20 anos está associado com doença periodontal mas, não está associado a outros problemas de saúde física.

 

Para mim, foi útil o insight de perceber que a abstinência de maconha na adolescência ainda é um desafio. Com certeza, observo na minha prática clínica que o relacionamento com os pais é muito importante para o sucesso do tratamento interdisciplinar e que fazer tratamento reduz danos significativos. O foco deveria ser empoderar mais os pais de suas condições de darem afeto, participarem da vida des seus filhos, mesmo quando parecem ser rejeitados por eles e de colocarem mais limites e supervisão para os adolescentes, que precisam que os pais funcionem como seus lobos frontais na tomada de algumas decisões, embora estejam em processo de separação e individuação, típicos da idade. Há prejuízo cognitivo com o uso de maconha nos cérebros em desenvolvimento, principalmente. E para contra-argumentar com eles: raros são os casos em que a evidência científica vê benefício em maconha medicinal FUMADA.

Vamos investir na família, no vínculo social, atividades de lazer, cursos, projetos, todas as atividades neuroprotetoras que estimulam a cognição, continência de valores do que não merece gratificação e valorizar CADA PASSO positivo que eles realizarem.